Por Elisa Carvalho

A minha presença na I Mostra de Documentários de Mulheres, como produtora e mediadora, se deve a uma parceria iniciada a alguns anos atrás com Jessica Candal. Essa parceria se deu justamente por uma série de inquietações que percebemos que eram comuns. E a  grande maioria delas, diziam respeito ao fato de sermos mulheres. Da inquietação à ação, foram alguns meses, tempo suficiente para que a Je pudesse aprovar um projeto, conseguir patrocínio e iniciar uma investigação que, tenho certeza, inspirou outras mulheres a iniciar as suas próprias. Eu fui uma delas.

Éramos jovens pesquisadoras, com interesses em comum e com muita vontade de desatar alguns nós. Muitos deles, fomos descobrir mais tarde, criados por nós mesmas.  O embate com os textos e com o outro era por vezes instigante, por vezes desolador. Eram tantas as questões a serem respondidas, o tempo tão curto, a comunicação por vezes tão falha…Mas seguimos e a pesquisa de seu de forma nuclear, quando das reuniões na casa da Je, nas quais nos juntávamos à ela  (Eu, Andrea Nobre Vianna e Denise Rogenski) e passávamos tardes e noites falando, ouvindo, discutindo, procurando talvez um Espelhamento que só viríamos a encontrar mais tarde, em nossos próprios Reflexos. De modo extendido, a pesquisa se deu através de temas e textos que selecionávamos e propúnhamos para discussão com outras tantas mulheres. Os eixos temáticos que escolhemos para pautar as discussões tinham, por questões óbvias, relevância na vida de qualquer um, no entanto, nos parecia que era importante investigar as particularidades dessas relações em relação à condição feminina. Os temas selecionados eram esses que compõem hoje a Mostra: Identidade, Relações amorosas, Inserção social, Narrativas Familiares e Maternidade.

No entanto, durante a pesquisa, nos deparamos com o fato, às vezes irritante, de que todas esses temas, de uma forma ou de outra diziam também respeito à maternidade ou ao menos, se complicava ali. O ser humano ao nascer XX, parece carregar dentro de si uma possibilidade que, uma vez tornada real, vai implicar diretamente na sua identidade, nos meios de inserção social e assim nas diferentes esferas em que atua. É preciso dizer que não considero a função materna restrita às mulheres, creio antes que a maternidade pode ser exercida por homens e mulheres, pois me parece que do ponto de vista mais lógico, mãe é aquele “ente” que cuida e protege o filho até as últimas consequências, e esta função, convenhamos, pode ser desempenhada por qualquer ser-humano que o queira.

Por esse motivo simples e evidente, creio que a discussão das diferentes nuances que permeiam a maternidade é de extrema importância para que aos poucos, cada dia mais, as mulheres e os homens possam apropriar-se dessa possibilidade mas não sem antes refletir criticamente sobre ela. A reflexão sobre os motivos que nos fazem dar continuidade a um processo que desembocará na maternidade e sobre os motivos que nos fazem interromper esse mesmo processo parece ser a peça chave para entendermos a complexidade dos problemas sociais e individuais gerados por essa questão. Nesse sentido, a discussão proposta a partir dos filmes “Meninas”, de Sandra Werneck, e “O aborto dos Outros”, de Carla Gallo parece ser mais que providencial, pois espanta o romantismo démodé que via de regra envolve essa temática e explicita facetas problemáticas e  sombrias do mesmo assunto.

E como são diferentes os motivos para termos ou não um filho. Nos filmes, eu os vejo inconscientes, confusos, mas também óbvios e concretos. No entanto, um elemento parece estar presente em todas essas histórias: a falta. A falta do Estado que não protege (mas que não hesita em punir) e não garante condições de vida decentes para a maioria da população, a falta do envolvimento dos homens nessas discussões, como a ausência da figura masculina no filme “O aborto dos outros” durante os processos dolorosos que envolvem um abortamento, que evidencia que essa ainda é uma questão tratada como feminina, quando na verdade, diz respeito a todos. E a falta de perspectiva de vida, de educação, de saída. A falta que se configura em abandono, que faz da maternidade uma das únicas formas dessas meninas terem a atenção e cuidados que nunca tiveram (pois a maternidade é uma valor tido em alta conta) a falta, enfim, que faz com que a gravidez aos doze ,treze anos, talvez  seja a única possibilidade de crescimento na vida dessas meninas, vidas em que o que mais se tem de sobra é a falta de tantas outras oportunidades.